Não sei como consegui chegar em casa. Eu estava um caco, sem chão.
- Rodrigo o que aconteceu minha mãe ligou aqui desesperada a tua procura. O que houve? - perguntou Karina, a irmã mais velha de Júlia. Não conseguiria conversar naquele estado, sei que Hilda estaria preocupadíssima comigo, mas eu não conseguia.
- Cadê o meu filho? - perguntei num sopro de voz.
- Esta no dormindo, ele já esta melhor, mas me diga o que houve com Júlia? Minha mãe ligou aqui aflita e eu não entendi nada.
- Vá até o encontro dela, eu fico aqui com o Gabriel. - disse indo ao encontro de meu filho. Cheguei a beira da cama do meu filho e me assustei, onde eu estava que não vi meu filho crescer? Foram três anos perdidos, e agora quem sempre cuidou dele perderia toda sua vida. Isso não era justo. Por que ela? Não sei quanto tempo se passou só sei que fiquei ali admirando meu filho dormindo até o cansaço me consumir e eu cair no sono.
Logo toda a família estava sabendo do acontecido. Minha mãe se ofereceu e foi cuidar de mim e do Gabriel em casa. Eu já não tinha mais forças para nada. Não suportava ouvir meu filho chamando pela mãe e não obter o que queria. Talvez se fosse eu ele não sentiria tanto assim.
- Pare com isso! - disse minha mãe entrando num rompante em meu quarto.
- Parar com o que? - disse sem olhar para ela. Estava jogado em minha cama, havia uma semana mal saia do quarto.
- Com essas lamurias, com essa pose de desistência, sei que esta sofrendo mas precisa se levantar! - dizia minha mãe. Fiquei de cabeça baixa, nunca ousei confrontar minha mãe. - Filho. - ela se aproximou de mim passando a mão no meu cabelo. Não aguentei e cai num pranto sentindo.
- Rodrigo, você precisa sair dessa, estamos todos sofrendo, Gabriel precisa muito de você neste momento.
- Não consigo mãe.
- Claro que consegue. Faça isso por Júlia. Ela também precisa de você. Não chegou nem a visita-la no hospital. Ela precisa muito de você, ela esta viva, não morta. Por favor filho sei que pode reagir.
Fiquei absorvendo as palavras de minha mãe, ela tinha razão, precisa dar um jeito de reagir, não por mim, mas por meu filho e principalmente por Júlia. Uma vez na vida eu tinha que reagir.
Passou um pouco mais de um mês, e as noticias ainda eram as mesmas. Júlia continuava desacordada, em coma. Desde de o dia do acidente e que soube o estado dela, não apareci no hospital. Ainda me sentia culpado e não tinha coragem de vê-la.
Num dia desses, enquanto brincava com meu filho no tapete, ouvi só o grito de minha mãe vindo da cozinha, que continuava a me ajudar.
- O que houve mãe? - perguntei assustado.
- Ai meu filho uma barata. - disse ela branca apontando para ela. Logo tratei de mata-lá. Olhando para a barata já morta no chão lembrei-me do meu começo de namoro. Júlia e eu estávamos em meu apartamento vendo um filme, quando uma barata apareceu voando na sala. Júlia tinha pavor de baratas. Lembro me até hoje dela gritando em cima do sofá abanando as mãos. E lembro-me dela também me chamando de herói quando a matei.
- Rô, você é o meu herói! - disse ela pulando em meu pescoço
- Só matei a barata, amor. - ri da situação
- Não me salvou. Obrigada.
- Não precisa disso. - disse encabulado
- Claro que precisa, sabe por que? Eu sei que quando eu estive em qualquer situação por pior que ela seja, você vai me salvar. Eu tenho completa certeza disso!
- Rodrigo! - disse minha mãe chamando-me para a realidade. - O que houve esta chorando meu filho? - Passei a mão pelo meu rosto, nem percebendo as lágrimas que caiam do meu rosto.
- Mãe faz um favor para mim?
- Claro! - concordou ela
- Fica com Gabriel para mim? Tenho que ir urgente em um lugar!

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